sábado, 12 de fevereiro de 2011

Versos tristes - Pablo Neruda

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.

Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos?

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto, o orvalho.

Que importa que meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta em tê-la perdido.

Como se para trazê-la para perto de mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, que fomos, já não somos os mesmos.

Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Minha voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outra pessoa. Ela será de outra pessoa.
Como antes dos meus beijos.
Sua voz, seu corpo de luz. Os seus olhos infinitos.

Eu não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
O amor é tão curto e tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta eu segurei-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por tê-la perdido.

Embora possa ser a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

Pablo Neruda

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